Sobre a Prática Clínica
O processo de psicoterapia é indicado para as pessoas que aspiram dispor de um espaço de escuta, a fim de investigarem a inseparabilidade entre mundo interno e externo e, a partir desse cuidado, encontrar caminhos para se reposicionarem diante de suas narrativas.
A clínica se faz no entrelaçamento entre dois (ou muitos) gestos indissociáveis: delicadeza e corte.
Por um lado, trata-se de um espaço-tempo de acolhimento, desaceleração e cuidado, a partir do qual é possível experimentar momentos de pausa e amparo diante de circunstâncias desafiadoras.
Por outro lado, a prática clínica só ocorre efetivamente quando alguns desvios e arejos nas narrativas recorrentes são acionados pela pessoa escutada, permitindo a ressignificação e a singularização da existência.
É importante ressaltar que toda relação clínica sustenta uma direção ética e também política. No meu caso, a condução do processo se tece a partir de lentes interseccionais que incluem uma atenção para as relações étnico-raciais, de gênero, territorialidade, capacidade, condições socioeconômicas, entre outros marcadores do campo social.
Além disso, a escuta na clínica não se reduz à comunicação pela fala e audição, pois envolve a participação do corpo inteiro e convida a gestos de atenciosidade e presença sensível. No atendimento às pessoas surdas sinalizantes em língua de sinais, por exemplo, a língua viso-espacial libras é imprescindível para o estabelecimento do encontro psicoterapêutico.
Os vetores de força da Reforma Psiquiátrica, da Luta Antimanicomial, a historicização sobre os processos de medicalização da sociedade, as linguagens sensíveis da arte, as incursões em práticas decoloniais, os estudos das relações multiespécies em tempos de ansiedade climática e, sobretudo, as tradições de sabedoria budista também atravessam a minha escuta e olhar como psicóloga clínica.
A condução do processo pela via da esquizoanálise nos convida a apostar em uma prática clínica que realiza a genealogia das linhas de constituição subjetivas e seus agenciamentos desejantes.
Deste modo, pretende-se acompanhar deslocamentos intensivos que sejam potentes e benéficos para a pessoa atendida na relação com os mundos por ela habitados e indissociavelmente compartilhados com outros seres, humanos e não humanos.
